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Ótima entrevista de Bibi Ferreira a Sonia Racy (Direto da Fonte – Estadão)

Aos 91 anos, a diva tem fôlego de dar inveja – e se diz privilegiada. Só não tente falar com ela no aeroporto ou a caminho do dentista: “É capaz de não me reconhecer”

Bibi Ferreira bate três vezes na madeira. Aos 91 anos, a atriz, cantora, diretora e compositora diz fugir de superstições, mas se rende quando o assunto é a idade. “Não gosto de falar dessas coisas, dizem que não é bom. E também tenho muito respeito por tudo que me é dado por Deus.” E mais: “Todo mundo fala disso, mas não tenho 90, 91 ou 92 anos”. Levanta para provar. “Não se vê uma mulher na minha idade ter a voz que tenho, poder ficar em pé, andar. Se sou uma eleita, não posso ficar esnobando, tenho que dar graças a Deus, ficar quieta e rezar”, afirma, beijando a medalha de Jesus Cristo que sempre carrega no pescoço.

Sim, Bibi é uma privilegiada. E motivos não faltam. Em abril, realizou um de seus grandes sonhos: cantar em Nova York. Em sua primeira apresentação nos Estados Unidos, saiu do Lincoln Center ovacionada. Agora, volta aos palcos brasileiros para celebrar os 30 anos de seu espetáculo de maior sucesso: Piaf, a vida de uma estrela da canção. E já se prepara para o próximo desafio: ser a primeira mulher a interpretar Frank Sinatra. A estreia de Bibi Sings Sinatra tem data marcada: junho de 2014. A receita? Bom humor e chocolate quente. “Quem não gosta, não é?”, indaga. Ela recebeu a coluna na véspera de sua estreia em São Paulo com Bibi Canta e Conta Piaf.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Você trouxe Edith Piaf para si ou foi até ela?

Tentei ir ao máximo até ela. Não copiá-la, porque é impossível. Mas ouvi-la muito para ter certeza do que iria cantar. Passa-se um longo período do momento em que começo a ouvir um cantor até ensaiá-lo e apresentá-lo no espetáculo. Com esse distanciamento, perde-se a possibilidade de cópia. Tenho que encontrar a maneira de interpretar ao meu jeito aquilo que os outros – como Piaf – fizeram de forma magnífica.

E o que foi mais difícil trazer de Piaf?

A emoção. Ela era muito verdadeira e espontânea cantando. É isso que tenho que dar ao meu público. Tenho que me entregar inteiramente.

Sua relação com a música é emocional ou racional?

É sempre racional. Não podemos nos emocionar. O ator e o cantor não podem se entregar a uma emoção antes de entregar para a plateia a sua obrigação. O dia em que pior cantei foi numa apresentação da peça Divórcio, de Clemence Dane. Meu pai (Procópio Ferreira) estava muito mal de saúde. Eu tinha medo de olhar para a coxia com receio de que algum gesto ou semblante das pessoas que estavam ali me dessem uma má notícia. Não queria nem olhar. Estava apavorada. A emoção verdadeira agarrou a minha garganta e perdi a propriedade de tomar conta de mim. Graças a Deus, ele não morreu naquele dia, nem naquela fase.

É possível controlar a emoção?

Como cantor e ator, é preciso tomar conta de suas emoções. Não podemos deixar que elas ultrapassem a barreira. Temos que entrar no palco muito limpos de sensações. É preciso uma concentração muito grande para deixar o problema no camarim. Qualquer que ele seja, não vai ajudar a ter menos ou mais emoção. O que dará menos ou mais emoção no palco é o profissionalismo, a prática, o trabalho.

Explique melhor.

A emoção não pode vir de terceiros, tem de vir só de você e do seu trabalho. E tem de ser única, verdadeira, aquela que vai ser apresentada profissionalmente para uma plateia que pagou para assistir você. O público não tem que saber das minhas emoções e nem eu tenho que intranquilizá-lo. Tenho que estar bem. Mas, até hoje, tenho horror de olhar para a coxia.

Como manter o foco?

Concentração. Mas aconteceu comigo uma vez: fui entrar em cena, e, quando dei o primeiro passo para pisar no palco, meu vestido, que era de voal, enroscou em um prego e fiquei presa. A orquestra já estava dando o tom para a minha entrada e eu, presa ali. Não podia, de jeito nenhum, puxar o vestido senão ele iria rasgar inteiro. O maestro tocou duas vezes a introdução para a minha entrada porque ele não sabia o que estava acontecendo. Até que veio alguém com uma tesoura e conseguiu me libertar.

E entrou de que jeito?

Preocupada, é claro. Porque eu tinha feito bobagem. E o público estava pensando que alguma coisa havia acontecido. E, com certeza, não era coisa boa (risos).

O que sente entre o camarim e o palco?

Cantar é um ato de coragem. Ir para o palco é fácil, mas abrir a boca e soltar a voz afinada é bravo. Não sabemos o que vai acontecer. Pode sair bem, como pode sair mal. E o medo de a voz não sair? Às vezes, deixamos o camarim com preocupações – que podem ser até íntimas, que ninguém sabe do que se trata. Mas, quando piso no teatro, peço pelo amor de Deus que não venha nada, nem a coisa boa. Porque, naquele momento, nem a própria coisa boa é boa.

Por que?

Porque te preocupa e o assunto, quando vamos entrar no palco, tem de ser só um: afinar, lembrar que você está ali como um profissional e que pagaram para ver você. Ninguém está brincando. Não pode ser amador.

(veja a sequência no site do Estadão.com)

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